Insight  | 30.04.2013 | Marina Seibert Cézar

Conforto: satisfação emocional
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. © Johan Ku

Podem criar as máquinas mais modernas e incríveis, ainda não há como conseguir substituir por completo o significado do trabalho manual, já que existem habilidades que provocam sensações que somente a mão humana é capaz de tal destreza. É cool ter um aspecto de vovô!

Dos valentões aos sentimentais, dos jovens aos mais vividos, todos gostam de se sentir seguros. Mais do que um produto com a tecnologia de ponta, os consumidores procuram algo que vão saciá-los emocionalmente. Para tanto, os apelos emocionais ajudam nessa tarefa. O que ocorre é uma convergência para sensações. Não estou falando (ainda) do marketing experimental, mas de encontrar na sua volta, um afeto que, mesmo superficial, trará uma ambiente acolhedor. Como se um produto pudesse te abraçar, te acolher. Como é o caso de roupas que tem o poder de simular um contato humano A busca por tecidos agradáveis ao toque está sendo procurada não somente nos meses mais frios, já que as pessoas querem mais do que uma simples peça de roupa, e sim um verdadeiro carinho têxtil. Por isso, vemos atualmente uma tentativa de deixar a silhueta mais fofa, sem perder a graciosidade – contrastando com o pensamento de que, para se parecer sensual, necessitava ajustar ao máximo, já que "o que é bonito é pra se mostrar". Talvez esse chavão não esteja tão coerente hoje em dia na estética.

Então, também podemos esquecer aquela ideia de que, para parecer elegante, precisava estar com peças mais endurecidas. A rigidez dá espaço agora ao fluido, e não tem nada mais belo do que perceber o conforto no vestir de uma pessoa. A TriFil sabe disso, e possui uma linha de produtos cujo nome não poderia ser mais convidativo: Bem Estar. Cada vez mais, há peças com acabamentos super confortáveis, segunda pele, lingeries sem costura – a Lupo e a Scala já se estabeleceram no mercado com essa técnica. É perceptível essa temática nas passarelas do inverno, onde a compilação dos desfiles confirmou uma inclinação aos conjuntinhos ao melhor estilo pijama, em Miu Miu, Emilio Pucci, Céline e até mesmo em Prada e Louis Vuitton. Talvez um bom exemplo seja a estilista (ou seria a artesã?) Vanessa Montoro, que defende a originalidade e a noção de atemporalidade em suas peças feitas manualmente por todo o seu processo, desde a fiação até o tingimento, sendo esses pigmentos extraídos também de forma natural, como da casca de cebola e do pó de café. Suas matérias-primas são tricô e crochê, que encantam tanto no inverno quanto no verão, possivelmente porque conseguem aliar o resgate daquela sensação de colo de vó com um requinte bastante apurado.

Assim como Adriana Degreas, que evidencia o aconchego em suas peças primaveris, onde o biquíni faz harmonia com os caftãs com textura de crochê, que inclusive ela nomeia de poncho. Conceito muito de acordo com imagens de editoriais de moda atuais, com propostas que celebram o tricô e suas combinações com outros materiais, como o cetim, provando que é muito fácil e bonito essas misturas, indiferente da estação. Isso se estende aos acessórios, inclusive para o universo masculino, como bem comprova Emporio Armani e Ermanno Scervino com seus chapéus e mantas de lã super aconchegantes. Não à toa que, neste inverno, as tramas bem exageradas do tricô serão muito bem vindas. É o resgate de uma boa lembrança, um cheiro gostoso.

Christien Meindertsma traduz bem esse conceito ao evocar, através da técnica artesanal, a brincadeira das proporções no exagero nas tramas, a ponto de parecermos pequenos perto de seus trabalhos. Podem criar as máquinas mais modernas e incríveis, ainda não há como conseguir substituir por completo o significado do manual, já que existem habilidades capazes de trazer sensações que somente a mão humana é capaz de tal destreza. É cool ter um aspecto de vovô! Na decoração, não é muito diferente. Há lustres, tapetes, mas principalmente cadeiras, poltronas e sofás feitos com fios de lã como se estivessem sido só enrolados. É possível ver (e comprar) no site da Ferm Living coisas bem fofas de tricô, como almofadas, vaso, abajur, pufes e muitos outros acessórios pra casa. Na mesma linha, existe a Luminária da Granny (nome já diz tudo) e os trabalhos da designer Eulália de Souza Anselmo, que além de poder sentar nos seus pufes e cadeiras, dá vontade de se aninhar neles.

Nesse mesmo sentido, o título de uma das edições do Fórum de Inspirações da Assintecal foi bastante sugestivo: aconchego. Posto isso, o caderno trazia as mais variadas formas de interpretação dessa pequena grande palavra. Desde uma mesa farta na hora das refeições até a memória cultural de um espaço no mundo. E é bastante apropriado afirmar isso, já que depende muito do que cada um compreende sobre essa palavra. Pode ser um encontro de domingo com toda a família onde cada um fala ao mesmo tempo, ou a tranquilidade de sentar sozinha na grama numa tarde ensolarada em num parque. O importante é o sentimento, não o fato em si.

A qualidade de vida pode, para muitos, estar no sossego. Alguns famosos estão em busca disso, um efeito contrário do esperado. Aqueles que atingiram a fama resolvem sumir e se possível, voltar a ser anônimos, ou no mínimo, não estarem tanto nos holofotes como um dia conquistaram. A atriz Ana Paula Arósio é um exemplo disso. Começam a ser populares histórias sobre grandes empresários que decidem largar seus postos para se dedicarem ao jardim e filhos, por exemplo. Imaginem só, o herdeiro de uma fortuna resolveu morar numa fazenda e cultivar alimentos orgânicos. Pedro Paulo Diniz tinha o Pão de Açúcar em suas mãos e preferiu trocar as festas e ostentação por galinhas, plantações e meditação. Mesmo aqueles que têm muitos aparatos em casa, a motivação pode não ser a ostentação, e sim proporcionar encontros em casa, como cozinhar para a família e amigos. Momentos que começam a ser mais prazerosos do que se estressar no trânsito, pegar fila no restaurante e ainda pagar caro por tudo isso.

Assim, editoriais de moda evocam muitos abraços, apego, pessoas relaxadas, como se estivessem num passeio de final de semana no parque, sem pensar em mais nada. A Hering, por exemplo, há tempos alega que é gostosa como um abraço. Agora a Dove, com seu filme publicitário “Abrace a vida com Dove”, incentiva as pessoas a pensar o que e quem elas poderiam abraçar mais. Da mesma forma, é possível interpretar o lançamento de vários carros mais acessíveis, onde o assento parece uma verdadeira poltrona, realidade que não é mais exclusiva aos modelos luxuosos. Para muitos, o significado de aconchego está diretamente ligado a ficar bem perto de quem se ama. O ramo hoteleiro está atento a essa demanda e se organiza para cada vez mais oferecer esse serviço. E quando digo isso, não estou falando de quartos mais espaçosos ou áreas de lazeres, e sim, possibilidade para a família poder levar seu animalzinho nas viagens, por exemplo. Quem tem um pet e ama, sabe o sofrimento que é ter que deixá-lo com outra pessoa. E o que dizer então de poder levar seus filhos para o trabalho? Seria o sonho de muitas mães (mas talvez a dor de cabeça para muitos colegas). Isso já é uma realidade em algumas companhias da Grã Bretanha e Estados Unidos, que autorizam e garantem que rende resultados positivos.

Sobre a noção de aconchego, será que essa não foi uma das razões pela adoração da cadeira Egg? Mais do que descansar nela, é um móvel super envolvente e hoje é até mesmo possível tê-la com a estampa que quisermos, conforme propõe a Fasolo Casa. Outro exemplo é a poltrona premiada Hug. O criador búlgaro Ilian Milinov soube simular uma relação, como se uma pessoas estivesse sentada no colo da outra. Já a Hug Chair tem o nome similar e também é bastante convidativa, mas com um desenho diferente. Segundo sua criadora, Gabriella Asztalos, ela combina um formato espiral bastante original com os valores de um abraço. É uma única estrutura circular, em que cabem duas pessoas sentadas frente-a-frente, criando uma interação bastante íntima.

O bem-estar pode vir tanto no sentar quanto no caminhar. Quando entramos no segmento calçadista, esse conceito se potencializa ainda mais. Inclusive está sendo considerado objeto de pesquisa científica no meio acadêmico, com inaugurações de pós-graduações sobre a ciência do conforto na moda de uma maneira geral. Isso me lembra que, durante a oitava edição do Colóquio de Moda no Rio de Janeiro, publicações e debates sobre esse tema se mostraram cada vez mais relevantes, e os resultados eram sempre unânimes: quanto mais se investir, melhor. É cada vez mais comum empresas possuírem uma linha onde o conforto impera. Essas marcas estão investindo em tecnologia, proporcionando cada vez mais alívio aos donos dos pés que procuram comodidade física sem perder o apelo estético. A Piccadilly possui a Maxi Therapy, onde o revestimento do contraforte no calçado consegue se adaptar conforme o calcanhar, sendo o avesso feito em microfibra. Beira Rio, Ortopé, Timberland e tantas outras também estão apostando em tecnologia para garantir maior maciez aos pés. Assim como as marcas especializadas, como a Sapatoterapia, que expandem entre o masculino e feminino, com suas botas, sandálias, tênis e sapatilhas. Opananken defende que a saúde começa pelos pés, por isso investe em pesquisa para adotar métodos que intitulam anti stress, o que significa permitir a circulação de ar, além de possui formas anatômicas, sistema anti impacto, emendas e costuras bem planejadas para não causar atrito, palmilha com memória, uso de couro de ovelha e seu peso final ser leve, além de ter uma linha para os diabéticos. Já a Usaflex sabe acomodar muito bem os mais variados tipos de pés e pisadas, usa somente o couro de boi, com palmilha acolchoada para amortecer o impacto e possui uma linha exclusiva para quem tem os indesejáveis joanetes. A italiana Geox, por sua vez, é conhecida por seus calçados que permitem a respiração por assim dizer, já que possui microporos no forro que garante um sistema natural de refrigeração.  Comfortflex tem nas suas botas, tênis, sapatilhas, sandálias, rasteiras, peet toe, scarpins, mocassim e afins, uma suavidade no caminhar, e explica que é graças ao seu sistema de palmilhas anatômicas, que reproduz a anatomia do pé para um perfeito encaixe por decorrência de uma inteligência distribuição de pressão do peso corporal, e o melhor de tudo: sem precisar sair do salto. E isso é um presente às mulheres que voltam pra casa todos os dias somente tarde da noite e não querem precisar usar tênis para garantir que aguentarão a jornada numa boa.

Antes tarde do que nunca, está sendo colocado finalmente de lado o sofrimento obrigatório quando se vai a algum evento importante. O cálculo era sempre esse: quanto mais pomposa a ocasião, maior a elegância, consequentemente mais desconfortável o sapato. Hoje é possível resistir belamente até o final da festa, graças aos investimentos nessas tecnologias. Seus preços ainda podem ser, em alguns casos, mais elevados se comparados com os comuns, mas ao menos existe essa opção de não precisar se acostumar com o incômodo nos pés. Prova disso é que muitas empresas iniciaram um trabalho com a mira no público restrito dos profissionais da saúde, que trabalham muito tempo em pé, ou com algum tipo de problema no andar, e tiveram que se adequar a um outro nível estético, já que consumidores nas mais variadas áreas também reivindicaram conforto, mas só se os calçados fossem agradáveis aos olhos. E é o que ocorre.

Então que descanse em paz a expressão de que precisamos sofrer para estarmos bonitas.

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