Insight  | 01.05.2013 | Marina Seibert Cézar

Customização: tudo do seu jeito
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Ciao Mao.

Customizar não é mais reaproveitar peças velhas para que deixem de aparentar os estragos do tempo. Hoje, personalizar peças de moda significa imprimir no vestuário e nos acessórios um estilo pessoal, criativo e informado.

Em um passado recente, a justificativa para interferir numa peça de roupa era porque ela já estava bem desgastada, quase caindo aos pedaços. Essa ideia não era muito bem recebida pelos jovens, pois remetia a uma mania que as avós tinham para aproveitar ao máximo uma peça tapando eventuais furos e imperfeições. E o principal motivo da frustação dos netos era porque acabava com a expectativa de poder pedir uma coisa nova. Como bem sabemos, o bacana sempre foi o novo, isso inclusive é uma das vertentes mais enraizadas no universo da moda: apenas por ser novo, subentende-se ser melhor que o antigo, por isso que irá substitui-lo. Além disso, o diferente sempre nos foi atraente, entretanto agora sua conotação mudou. O diferencial que antes era baseado em algum luxo acessível para poucos, hoje encontramos no exclusivo. E quando falo de exclusividade, também não significa que ela seja proveniente de grifes famosas e edições especiais caríssimas. O famoso valor agregado está deslocado para algo muito mais simplista, originado quem sabe nas pequenas cooperativas de artesãos que desenvolvem produtos genuinamente diferentes. Além de tudo, ainda possibilita o reaproveitamento de matérias-primas nas suas criações.

Por isso que hoje, interferir em objetos (para torná-los mais) pessoais vai muito além de não querer gastar dinheiro. Aliás, muitos dos consumidores que têm essa consciência teriam condições de pagar por algo novo. Mas essas pessoas preferem resgatar peças antigas e, se der vontade, até customizá-las. Nunca os brechós voltaram com tanta força. Mais do que o “último grito da moda”, queremos produtos que possuem memória e que nos contem uma história. E esqueçam aquela imagem folclórica popular da customização, hoje é tudo muito charmoso. As revistas e blogs ajudam a elevar essas técnicas a algo bem interessante. Isso inclui as doações e as trocas que estão fazendo sucesso. Ou até aplicações em peças recém-compradas já que adquirir numa loja de departamento, onde tinha mais vinte iguais à disposição, não tem muita graça. Inúmeros tutoriais ensinam como fazer daquela regata um referencial de estilo com algumas aplicações de tachas, um cinto com um elástico antigo, como transformar retalhos em broches, fazer daquele lenço uma blusa e assim por diante, a cada dia uma ideia nova para aproveitar o que se tem em casa. Assim, além de diminuir o consumo, traz aquela sensação de estar salvando o planeta e também garante um produto especial.

O melhor é que essas alterações personalizadas ajudam a reforçar o estilo do dono, possibilitando por meio de colagem de strass, por exemplo, desde um desenho de caveira até de coração. Ou uma caveira de corações. Isso ajuda significativamente a ampliar as possibilidades aos que tem um gosto mais peculiar, já que, por mais que as opções estejam aí, nem sempre achamos o que gostaríamos. Ao menos não à disposição imediata nas lojas de algumas regiões. A personalização está trazendo de volta o que perdemos na industrialização – e depois houve uma superficial releitura na globalização. Agora voltamos a algo mais pessoal e artesanal. Além disso, ainda há outra variante: o empréstimo. Não é muito comum aqui no Brasil, pois ainda se restringe muito a roupas de festa. Mas é outro nicho bastante promissor. Uma das mais conhecidas é a Bag Borrow or Steal, que permite a pessoa escolher sua bolsa e alugá-la por semana, mês ou durante toda a temporada, sendo renovada automaticamente se não devolvida. A BoBags é nacional e suas opções de funcionamento são bem similares.

Bom, diante de tudo isso, vale o questionamento: será que continua sendo tão bacana assim o frenesi de mostrar pequenas coleções a cada quinze dias? Logicamente que a novidade sempre despertará desejo, mas parece que chegamos a um extremo consumista que está fazendo repensarmos esse conceito estabelecido como positivo para o mercado. Já sabemos sobre a fragilidade proposital de certas tecnologias que obriga a troca constante de objetos, além da nossa consciência sobre os produtos nascerem com uma obsolescência programada e já não achamos mais nada legal nisso. É de se pensar, pois ao mesmo tempo em que é fato querermos novidade e variedades na hora da escolha, não tem coisa melhor do que ir a um espaço coletivo de novos estilistas e produtos de segunda mão com preços mais que justos, tomando um café e acompanhando, ao fundo da cafeteria, a gurizada trabalhando no atelier e garantindo que o que está na loja pode ser adequado. Conheci um lugar assim na serra gaúcha e fiquei encantada. Sei que tem mais, porém ainda poucos.  

Uma das respostas também a esse excesso foi o projeto idealizado por Sheena, uma despretensiosa visionária (se é que é possível colocar esses dois adjetivos na mesma frase) que se propôs a usar o mesmo vestido durante um ano. O Uniform Project nasceu para arrecadar fundos para que mais crianças indianas pudessem ter acesso às escolas, mas para muitos serviu como um alerta para repensar essa histeria do sistema fast fashion. Inclusive ela, sem querer, incentivou várias outras pessoas a fazer o mesmo, já que esse desafio comprovou que é possível reaproveitarmos muita coisa através da inventividade.

Esse conceito pode ser estendido ao ramo da decoração também, onde há outro universo rico para explorar, com dicas para repaginar objetos antes deixados de lado ou que iriam para o descarte. Vale lembrar que mesmo ficando com um aspecto caseiro, não significa perda de qualidade. E a procura é grande não só por uma questão sustentável, mas de exclusividade mesmo. Porque, levar pra casa só o que comprou parece quase algo ultrapassado. No mínimo tem que haver possibilidades para alterá-lo de acordo com nossa cara. Ou até mesmo fazer o seu próprio. É o que a Upper Street London propõe com seu sistema que permite que o internauta seja o estilista de seu próprio calçado. Eles desenvolvem e entregam na porta de casa (isso inclui o Brasil) o calçado projetado na tela do computador. Quem ainda não conhece, vale a pena. São somente sete etapas de criação para desenhar seu sapato, podendo variar o cabedal, cepa, cor, aplicações e afins. Está agradando bastante, especialmente mulheres que adoram combinar com o que já têm de roupas, além das noivas.

Taí uma proposta que está caindo de madura, pois aposto que se mais empresas fizessem isso, seriam aclamadas. A Nike já sabia disso e ainda possibilita através do seu NikeID personalizado, gravar até o seu nome – ou qualquer palavra que a sua imaginação permitir – na lingueta do tênis. Ainda no ramo calçadista, a Ciao Mao dispõe de modelos que vêm junto com adereços para enfeitar de acordo com o gosto do cliente. A versão infantil dos calçados até mesmo vem com acessórios com velcro nos formatos de nuvens, estrelas, animais e outras figuras, coisa que muito adulto iria se divertir escolhendo sua produção antes de sair de casa. A Ray-Ban também está cada vez mais se especializando nisso. Ao menos já é uma vitória a quantidade de marcas que possuem, nos seus sites, simuladores para montar ao gosto do cliente antes mesmo de ir à loja física. São desde relógios, celulares, bonecas, projetos arquitetônicos até no setor automobilístico, como foi o caso do projeto colaborativo do Fiat Mio, um carro conceito construído a partir de ideias dos consumidores. Isso sim que é ouvir os clientes.

E viva o Creative Commons! Tudo indica que esse tipo de licença, que possui uma maior flexibilidade, ofereça algo mais adequado ao mundo interativo do “faça-você-mesmo” que estamos presenciando. Com a customização em massa, o cliente se sente parte do produto e a empresa garante a satisfação. Todos saem felizes. Até o monstrinho My Little Cthulhu pode ser comprado em branco para pintar e bordar como desejar.

São manifestos como esses que, mesmo não tendo a pretensão, provocam a autenticidade. Até porque, nesse atual mundo saturado, o autêntico é cada vez ser o mais natural possível. Na mesma intensidade que a globalização trouxe o ingresso ao mundo pela porta da frente, ficou trivial saber tanto. Ironicamente, a diferença hoje está na simplicidade. Toda a novidade se banaliza com assustadora velocidade, que faz com que seja cool não aquele que mais rápido adota tal tendência, mas principalmente aquele que primeiro sabe quando deve descartá-la por já estar massificado. É saber, por exemplo, que agora todos querem o tênis com salto embutido e exatamente por isso, talvez não querê-lo. É até engraçado pensar que antes quem detinha as informações tinha uma carta na manga. Hoje, isso pode soar até ganancioso, pois o informado não é mais quem detém a informação, mas quem a repassa mais rápido.

Paralelo a isso, cada vez os consumidores estão mais insatisfeitos – não, isso não é ruim. Uma vez que essa monopolização da informação é uma tentativa frustrada de poucos que ainda resistem a acreditar em barreiras, a quem vai adquirir algo, muitas vezes não basta o produto em si. Nunca a palavra surpreender fez tanto sentido. Se antes esse quesito era voltado somente às grandes empresas, já que despendia pesados recursos financeiros, hoje é possuir estratégias de disseminação indireta de informação que fará com que pareça sem querer, que saibamos de ações que elas fazem. Não nos atinge mais tentar jogar na nossa cara explicitamente, mas sim, fidelizar pela despretensão – mesmo que essa seja uma jogada de marketing. Funciona. Se pensar, até para pedir em casamento é precisa ser criativo, pois se for propor em um jantar romântico a dois como manda a tradição, pode ser que a noiva queira repensar. Inúmeros vídeos rolam na internet, com a ajuda dos amigos e familiares, onde cada um faz sua parte e o resultado fica emocionante.

E até, quem diria, nosso mais valioso suporte material e simbólico também está bastante interativo. Uma vez que podemos manipular nosso corpo praticamente como bem entendemos, nossa aparência ficou uma questão negociada, não mais cultivada. Intervenções cirúrgicas estéticas, escarificações, implantes, tatuagens, adesivos, artifícios na maquiagem e inúmeras outras técnicas fazem com que sejamos cada vez mais dinâmicos na nossa visualidade.

Esse conceito da customização se estende também para as mídias sociais, a ponto de tornar bastante difícil conseguirmos identificar a autoria de alguma postagem, já que todos podem interferir de alguma forma num produto, uma foto, numa frase, numa ideia etc. Assim que cai em nossas mãos, temos uma vontade súbita de avisar ao mundo que sabemos daquilo, sem que às vezes, procuremos de fato comprovar sua veracidade ou origem. A grande sacada é entender isso como algo bom, onde vivemos num mundo fragmentado de tudo e que é de todos.

Só não vale confundir interativo com incompleto. Pode ser uma linha tênue entre o participativo e o descaso.

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