Insight  | 17.06.2013 | Marina Seibert Cézar

Pensamentos urbanos: Mobilidade & Civilidade
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. Colagem de Eduardo Biz

Na contramão do pensamento geral das pessoas que entendem, como símbolo do sucesso, andar com carros enormes e possantes, surge um movimento - ainda que tímido - que propõe a bicicleta como meio de locomoção. Mais que uma mudança de hábitos, o que se prega são novos parâmetros para a mobilidade urbana e as possibilidades sustentáveis.

Em um país como o nosso, onde é convencionado acreditar numa paixão incondicional por carros, a aceitação da bicicleta como um meio de locomoção ainda é um desafio. Para muitos, o carro é sinônimo de posição social e poder econômico. Quem tem por hábito utilizar outro meio, é porque não tem condições de manter um. Mesmo que esse fato contradiga o funcionamento de lugares desenvolvidos, onde é rotina ver empresários, convidados de festas e até prefeitos usando metrô ou ônibus como parte fundamental de suas vidas. Aqui, ainda gera grande espanto alguém bem arrumado chegar pedalando.

Parece que temos a obrigação moral de, quanto mais temos, mais precisamos mostrar. Camionetes e suas derivações de crossover, picapes, SUVs, nasceram como o propósito de ocupar duas vagas e andar a 30km/hora na cidade. Isso faz sentido e faz bem a quem tem. É a auto definição baseada na escolha do seu transporte que garante a compra do poder pelo ato de possuir um carro. Mesmo que o trânsito não comporte mais, porém como diria a filósofa Márcia Tiburi: “declínio do espaço público ocupado pelos carros em uma sociedade motorizada quando já não há por onde seguir”. E ainda faz uma paródia desse fenômeno com um funeral, como se todos estivessem indo ao mesmo enterro. Convenhamos: ao menos o humor desses motoristas que ficam trancados é condizente.

Pois bem, quem sabe deixemos de lado esse pensamento tupiniquim. Muito ainda precisa ser feito, entretanto muito já dá para se ver: ciclovias, bicicletários, alugueis etc. Há poucos anos, isso nem mesmo era reivindicado. Demorou, mas agora que está sendo internalizada a ideia do uso da bicicleta, até que está se encaminhando de forma crescente. Pode ter iniciado numa alternativa desesperada de fugir dos engarrafamentos caóticos que qualquer média metrópole hoje já encara, ou de tentar mostrar como é possível fazer sua parte para amenizar os danos causados para o meio ambiente.

Os ciclistas já adeptos são unânimes sobre defender de que nada adianta focar a atenção para aumentar as avenidas imaginando que assim o trânsito será desafogado. Pelo contrário, isso só resulta em impulso para que mais pessoas comprem carros. Basta ver Copenhague, ícone mundial sobre consciência do uso de transportes alternativos, que chega a criar promoções como o convite para gerar energia através de alguns minutos de pedalada em bicicletas conectadas a um gerador, na troca de um vale lanche. O Crowne Plaza fez isso, uma luxuosa rede de hotéis. Aqui, foi implantada essa técnica num presídio em Minas Gerais que abastece por enquanto uma pequena parcela da iluminação da avenida, mas já é uma excelente intenção.

No universo do consumo, algumas marcas aproveitam esse momento e levam em consideração o pedalar como estilo de vida na hora de criar, seja como uma fonte de inspiração ou de fato no viés da confecção de uma linha específica para este segmento. Assim, o esporte fino é disseminado discreta e constantemente. Prova disso são as sapatilhas como sapato para qualquer ocasião, assim como as bermudas invadindo o meio social. Entram nessa onda acessórios como as bolsas com espaços mais inteligentes, echarpes para aguentar o vento mais gelado e até garrafinhas de água super estilosas para serem levadas com muita facilidade. A expressão CycleChic se consolida nos capacetes com estampa de onça, nas sacola de supermercado feitas especialmente para serem pendurada nas laterais da bike, cestinhas de vime retrô, buzinas com formatos de pirulito, capas de chuva e galochas de poá, adesivos fluorescentes para além de sinalizar, ainda enfeitar, entre tantos outros acessórios.

Já sobre as próprias magrelas, há o que a imaginação permitir: aquelas dobráveis, as mais esportistas, as sinalizadas para noite, com dois ou mais assentos, aquelas com apelo mais nostálgico, com farol central ao estilo lambreta, aquelas de cores pastel e cestinha de palha. Ainda tem a Bicymple, uma versão sem correntes na qual os pedais são na roda traseira. E engana quem pensa que custa mais caro. Uma das pretensões é exatamente baixar o custo e facilitar a manutenção.

E se de repente descobriu um parque e deu vontade de relaxar? Sem problemas: com as bicicletas multiuso, basta estacioná-las e abrir um compartimento existente entre os pneus e retirar o seu kit piquenique, baixando a portinha e fazendo dela uma mesinha com suporte para copos e quitutes. Há ainda as feitas de papelão. Sério. Não é brinquedo de criança: aliás, é resistente e muito baratinha. Pergunte ao israelense Izhar Gafni como se faz. São invenções como essas que começam numa garagem, só a espera de uma empresa disposta a investir na tecnologia. Como hoje já ocorre com as feitas de sucatas encontradas em ferros-velhos, graças ao projeto Bicycled. Tamanha é a atenção dada às bikes, que elas estão invadindo o segmento de decoração. Servem desde aparadouros em hall de entrada até suporte de cuba em banheiro.

Na prática, há organizações para passeios ciclísticos com brindes aos participantes, arrecadação de recursos destinados às causas sociais e de quebra, rever os amigos e pegar um sol. Cada vez com mais responsabilidade, como é uma das funções do portal Mobilicidade, que propõe soluções simples para uma mobilidade urbana mais inteligente e com uma preocupação na preservação ambiental, como a utilização de energia solar no transporte e aplicativos disponíveis para download ali mesmo. Ele direciona aos projetos públicos conforme a cidade selecionada: bikeRio, bikePOA, bikeSantos, bikeSampa e assim por diante, e o usuário pode verificar a previsão do tempo para garantir que não vai se molhar durante a pedalada. Incentivos online se espalham, além das mídias sociais que disseminam essa ideia com um apelo humorístico, mostrando a bicicleta como o veículo do futuro desde sua origem, só você que não viu. E para aqueles que ainda têm receio de encarar, é só procurar os BikeAnjos, voluntários que ensinam a ter segurança e seguir as regras de trânsito como qualquer outro veículo.

Na outra ponta, para aqueles que se sentem demasiadamente à vontade, podem tirar a roupa e fazer parte do World Naked Bike Ride! A participação pode ser na forma de imagens, como ocorre pelo projeto fotográfico “Downtown from behind”, idealizado por Bridget Fleming, que captura uma série de ciclistas em Nova York indo embora, literalmente. De costas, essas pessoas nem sempre são reconhecidas, mas o objetivo é perceber o ambiente urbano em transformação em uma das mais importantes e agitadas cidades do mundo. E assim, cada lugar adota a sua forma de fazer o cicloativismo, inclusive a partir de acontecimentos tristes, que podem servir para reforçar a necessidade da segurança, como o acidente ocorrido com o jovem ciclista que foi atropelado e perdeu um braço em plena Avenida Paulista.

Uma bela iniciativa sobre isso é o “Cidades para Pessoas”, projeto que juntou o savoir-faire de uma jornalista com o de uma artista plástica que, claro, só podia dar coisa boa. O intuito foi morar brevemente em mais de dez cidades do mundo para levantar alternativas de melhorias e trazer para a nossa realidade. E muita coisa foi descoberta mesmo, entre relatos e registros fotográficos. Em um dos vídeos feitos, compara a dificuldade de atravessar avenidas em São Paulo com outras cidades. O lema prioritário está na provocação: “está na hora de priorizar as pessoas”.

Através dessas buscas, na palestra no TEDxJovem, Natália Garcia propõe uma nova cidade, que inicialmente pode soar utópica, porém é muito exequível se mais gente acreditar em soluções locais. Ou seja, não esperar surpresas agradáveis do governo ou mudanças radicais. O foco da proposta é tentar resolver os problemas aos poucos e com a ajuda de todos. Há ferramentas de planejamento urbano relativamente simples, e a principal delas parte dos cidadãos que não querem se proteger da rua, mas sim, ocupá-la. Isso mesmo, é de fato usufruir tudo que ela pode oferecer.

Pensem: quando estamos dentro de um automóvel com as janelas fechadas e o ar condicionado e o som ligados, os caminhos que fazemos viram um grande fardo. Sejam rotineiros ou novidade para nós, o importante é chegar ao local. Entendemos como uma perda aquele tempo do trajeto até chegar ao destino. Por outro lado, quando pedalamos, parece que só então conseguimos realmente enxergar a cidade. Habitantes que moram há anos no mesmo lugar, agora postam declarações apaixonantes de como seu olhar ficou diferente depois que começaram a pedalar nas ruas mesmo já conhecidas de anos. É a noção de realmente se tornar cidadão, não apenas ser um morador. A cidade começa a fazer sentido, não se resume aos shoppings e sinaleiras vermelhas. É poder fazer seu horário, parar quando quiser para olhar algo mais de perto e mesmo assim, chegar ao trabalho mais rápido, feliz e inspirado.

A repercussão de todo esse movimento é um indicativo que se mostra cada vez mais interessante. As mais admiráveis mudanças hoje em dia se originam nas ruas, com jovens (espiritualmente falando) saturados de como se desenrola a política brasileira e então, arregaçam as mangas para mostrar como se faz. Uma vez que não parte de nós melhorarmos o transporte público e o planejamento urbano, a saída é escolhermos por não fazer parte disso, quase como uma forma de protesto. Chegamos num ponto tão desordenado sobre nossos governantes que finalmente estamos liderando, mesmo que timidamente, quem deveria nos liderar, e os ensinando a possuir um senso de reciprocidade, pois é quando pensamos no coletivo que todos saem ganhando.
Quem sabe um dia o esporte predileto nessa selva de pedras deixe de ser o acelerador do carro, combinado com uma buzina inconsequente e um som enervante, comandado por alguém que, quando é motorista, se sente desempenhando seu papel mais importante.

Um dia, quem sabe.

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