Insight  | 22.04.2013 | Marina Seibert Cézar

Hiperatividade!
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Essa coluna demorará dezoito minutos para ser lida ininterruptamente e não estará a disposição on line para depois baixar gratuitamente. Topa encarar assim mesmo? Podemos não nos deparar com perguntas capciosas como esta antes de textos, mas que mentalmente questionamos, ah, isso fazemos.

Tempo: esse é nosso maior luxo. É admirado aquele que consegue gerenciá-lo e, ao final do dia, não ter aquela sensação de que poderia ter feito mais num período menor. O que ocorre é o contrário. A calmaria gera desconfiança: se conseguimos um momento de descanso muito prolongado é porque alguma coisa deve estar sendo esquecida. Estamos cada vez mais imediatistas, queremos saber o que for, o quanto antes. Tanto é verdade, que o colecionismo hoje já não faz muito sentido, pois a principal sensação era a da espera e depois a da surpresa de conseguir o tal objeto sem ser repetido. Não temos mais paciência para esperar algo que queremos. Queremos para agora. Aquela sensação gostosa de suspense passou para a angústia. Até crianças são estressadas. É fácil perceber isso quando referenciamos como antigo algo que nem faz tanto tempo assim. Um filme lançado em dois mil já é velho. É como se a noção de tempo tivesse acelerado. Já é Natal de novo? Parece que foi ontem. Típico. Realmente fazemos muito mais coisas do que nossos pais quando eram jovens. Mas porque o trabalho não tinha como acompanhá-los depois que saíssem da empresa. E era impensável ter acesso a atualizações de amigos no meio da tarde fazendo outras tarefas. Hoje quem não faz isso é o diferente.

Assim, os produtos precisam otimizar ao máximo o tempo, esse elemento fundamental do modo de vida contemporâneo. Multifuncionais que imprimem, escaneiam e tiram cópia. Carros que já vem com conexão à internet e leitura oral de SMS. Máquina de lavar roupa que já seca. Celular então, só falta o tele transporte. Isso serve como algo positivo não só para máquinas. Virou uma característica a ser valorizada no currículo:  multidisciplinar, podendo pesar mais do que uma especialidade. Tudo precisa de agilidade e rapidez. Mesmo que não possamos usar, porque, pensemos: qual a função de carros cada vez mais velozes, se a lei de trânsito obriga um limite? Possivelmente a sensação de poder ser.
Os serviços precisam anunciar qual o prazo para efetivar o que prometeram, e ficam relembrando após sua aquisição. É o que ocorreu recentemente comigo quando realizei uma compra online, e na mesma semana recebi uma mensagem automática, mas posso também chamar de um pedido virtual antecipado de desculpas, no qual dizia: "Sra. Marina, não nos esquecemos do seu pedido" seguido de toda uma explicação sobre o trajeto que a encomenda ainda percorreria até chegar à minha residência. Para eles usarem esse comentário como estratégia para acalmar aqueles que ficam na expectativa de logo receber, muitas perguntas sobre quando receberiam a compra já devem ter sido feitas. Mesmo que no site mostre o prazo. Não muito diferente quando fazemos um pedido de tele-entrega em um restaurante e ainda dentro do tempo estipulado, ligamos só pra garantir que não esqueceram. Porém, quando estamos enfrentando o trânsito, queremos distância das manobras que os motoboys então são obrigados a fazer.

Os produtos de beleza também foram condenados a acompanham essa dinâmica. Os melhores são aqueles que milagrosamente atenuam celulites, disfarçam as linhas de expressão, firmam a pele, dão um toque de bronzeado, tudo em poucas semanas, ou até mesmo em dias. Deixar os dentes mais brancos virou coisa de poder contas nos dedos. Alisar o cabelo é outro truque que não precisa ser definitivo, basta aplicar poucas gotas do produto minutos antes do evento e voilá! Eles hidratam, perfumam e desodorizam. Limpam, restauram e alisam. Tudo virou dois (três ou mais) em um. Porque é muito mais econômico passar a tal loção uma só vez do que várias.  Da mesma forma, quem não se cuidou o ano todo pode fazer um intensivo para o verão. As academias estão preparadas, pois sabem que há uma súbita lotação de novos alunos dois meses antes da ida para a praia. Incentivos é que não faltam, já que as capas de revistas de beleza, com aqueles nomes bastante sugestivos sobre padrão de magreza, garantem que é possível um biquíni P em quinze dias. Mas se exigir muito esforço, correr para uma clínica pode ser também bem dinâmico.

Nossa insatisfação pela perda de tempo chegou ao Ministério da Justiça, que garante espera máxima em call centers de, na média, um minuto, dependendo do dia da semana e serviço prestado pela empresa. Assim como em filas de banco, de em média vinte e cinco minutos para ser atendido. Mas não adianta, tem coisas que não tem como esperar uma interferência governamental. É o que ocorre quando esperamos (não) pacientemente um site carregar. A alternativa é aproveitar para ir abrindo várias outras páginas. E se demorar muito para chegar ao tão esperado 100%, azar, melhor fechar porque nem deveria ser tão boa assim, se é lenta desse jeito. Da mesma forma quando abrimos um vídeo na internet, a primeira coisa é ver seus minutos totais, pois serão decisivos para saber se vale a pena olhá-lo por inteiro. A espera de um e-mail então, é o auge de uma agonia, mesmo que seu conteúdo não seja tão importante assim. Imagine só receber a resposta somente no outro dia. Inaceitável. Pois é, é por sabermos das possibilidades tecnológicas que ficamos intolerantes com o que seria o natural: esperar. Uma das justificativas que blogueiras viraram um mercado hipervalorizado é pela instantaneidade que outras mídias  não conseguiram acompanhar. Mesmo para quem não leva isso como profissão, ocorre uma cobrança não declarada. As atualizações em redes sociais passaram de entretenimento para uma responsabilidade que deve ocorrer com certa regularidade, pois se você ficar alguns dias sem dar uma opinião, poderá ser mal interpretado como esnobe. Até porque se não participar naquele instante de uma conversa, o atraso faz perder todo o sentido. Inclusive não é mais cogitado não possuir um perfil nessas redes, pode ser até considerado suspeito. E não me refiro à sua vizinha achar estranho, mas inclusive autoridades mesmo. Isso impulsiona uma manutenção de visita em redes das mais variadas. Tamanha necessidade que o vício da internet já é considerado um distúrbio e tratado como uma doença. É a ansiedade de precisar fazer várias coisas ao mesmo tempo, mesmo que comprometa a qualidade. Não nos preocupamos mais em prestar atenção em algo, pois a chance de achar completo na internet depois é grande. Até porque, enquanto alguém fala, estaremos muito ocupados mexendo no nosso iPhone, iPod, iPad e iOquemaisinventarem, procurando algo que perdemos na última conversa. Uma verdadeira confusão de prioridades.

Várias campanhas do mundo todo estão trabalhando de uma forma bastante sentimental com esse tema de desconectar mais. Observar, ouvir e refletir são palavras cada vez mais rumo à extinção. A aflição de querer saber um pouco de tudo pode ao mesmo tempo ser nada aprofundado e isso tornar-se uma ameaça ao pensamento reflexivo. Ler um livro inteiro... cada vez menos atraente para alguns. Um artigo, talvez, mas antes da tortura, vale procurar um resumo na internet para conseguir até com análises prontas. Há muitas opções e talvez isso esteja confundindo as escolhas. A tentação é grande e concordando ou não, muitas vezes é uma questão de adaptação. Percebo nos universitários que não levam mais canetas nem cadernos pra faculdade. Precisam mendigar empréstimos quando são surpreendidos do seu uso. Em dinâmicas onde fica proibido o uso de computador e deve ser entregue até o final da aula algo por escrito, é aflição do início ao fim por imaginar que não pode consultar nem mesmo a correção do Word. Não falta conhecimento, muitas vezes é pela falta de paciência que não permite escrever e refletir mais. Falando em paciência, viajar é muito bom, mas requer sempre a virtude da calma, pois faz parte perder algum tempo nos trajetos, nas filas, nas tentativas de se comunicar e demais episódios inevitáveis. Porém, para quem quer saber com antecedência o que vai encontrar e assim talvez otimizar o tempo, não são só as ruas que estão sendo mapeadas. Google Street View está não só mais em ruas, mas registrando imagens desde o fundo do mar até dentro de museus e florestas.

Para muitas pessoas, sua vida se resume em pen drives, HDs externos, tablets, celulares ou qualquer outro gadget que armazene o que é mais importante para cada um. Pensar que pode perder tudo já dá um enorme frio na barriga. A não ser que seja precavido e salve seus arquivos na Nuvem. Não só por uma questão de prevenção, mas de praticidade, já que possibilita acessar onde quer que esteja, suas informações e assim adiantar algumas tarefas.

E cada vez mais cresce o número de compras on line, onde bastam alguns cliques no conforto do seu quarto para receber em casa, sem precisar perder tempo para sair, achar vaga para estacionar ou ficar na fila do caixa. Mas para quem ainda não é muito a favor de compras virtuais, porém gosta do conforto do seu lar, tem a opção de reunir um grupo de amigos e chamar a loja pra sua casa. Cada vez mais empresas enviam suas mercadorias, ou mesmo a empresa fisicamente não existe, ela vai onde estiver o cliente. Basta ligar que eles vêm rapidinho, com uma seleção de produtos. As empresas precisam saber correr na mesma velocidade (ou maior) que os consumidores. Por isso, por exemplo, há no mercado uma variedade de bebidas prontas para o consumo, super práticas de carregar e abrir. Pois pode ter uma vontade de querer comer calmamente saudável, mas quando se tem poucos minutos para almoçar e uma pilha de problemas para resolver ainda no mesmo dia, fica difícil conseguir se desligar por completo. Talvez por isso que muitos restaurantes possuem alternativas que combinem mais com o momento, tendo somente uma mesa alta com vista pra fora quando o cliente senta nas poucas banquetas existentes no local. Para bom entendedor, o aviso é claro: come e pode ir embora. A bebida pode ser tomada no caminho. Nos cardápios, há uma observação para deixar o cliente bastante ciente de que seu prato pode demorar mais do que os outros. Geralmente acima de dez minutos já aparece um reloginho ao lado do nome do prato. Não que isso reduz a possibilidade da garçonete ser chamada para saber o que aconteceu já que está demorando tanto. Há inclusive algumas redes de fast food que possuem minutos máximos de espera para a entrega ao cliente que realizou a encomenda por telefone, e se não chegar até lá, a comida é de graça.

Realmente somos o reflexo do nosso tempo. Sem trocadilhos.

Então agora finalizada a leitura, sugiro que ligeiro abra seus e-mails e portais de news, pois nesses quase vinte minutos concentrado na revista, pode ter acontecido muita coisa!

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