Insight  | 06.09.2013 | Marina Seibert Cézar

Uma vida sem roteiros
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(Ou, o roteiro escrito por nós)

O protagonismo que vivemos inclui desde a criação ou customização das roupas e acessórios que vestimos até a maneira – inédita – que fazemos valer nossa voz no discurso político do Brasil.

Melhor do que esperar por boas ideias é poder, de certa forma, fazer parte da criação delas. Algumas inclusive podem já existir, só precisam de um incentivo para sair do papel. Apostar em novas ideias é apostar em um retorno positivo para todos. A co-criação é parte baseada nisso. São produtos interativos, feito para e pelo próprio consumidor, já que atualmente ele faz questão de fazer parte de todo o processo. O interesse está na democracia e esta, é fundada pela interação. Somados a isso, as pessoas estão muito bem informados para seguir cegamente alguém que se diz saber. Naturalmente curiosos e desconfiados, no bom sentido, elas querem comprovações quando, por exemplo, uma empresa se promove com divulgações sobre o direcionamento de parte de seu lucro para uma causa social ou que é a “número um” no que faz. Mais do que divulgar como uma autocelebração, o pulo do gato é envolver o cliente como parte fundante desse quesito.

Essa forma de fazer negócio é mais viável do que se pensa, apenas ainda soa estranho porque é considerada novidade para muitos. Veja o exemplo de KickStarter, uma plataforma para alavancar boas ideias na qual não possui envolvimento algum com elas, apenas expõe uma variedade de projetos que precisam de apoio financeiro para serem desenvolvidos ou mesmo se qualificarem de alguma forma. Para a submissão de um projeto, o criador precisa definir uma meta de custeio e um prazo para isso. Se o internauta gostar da ideia, pode auxiliar a bancá-la, e se a proposta atingir a meta, o criador fica com o lucro para que possa investir nisso. Sendo que os apoiadores podem ter recompensas, como uma cópia do livro, ingresso para a peça, ou mesmo um pedaço da obra que ajudou a concretizar. Muito mais do que doar qualquer quantia de dinheiro, esses pequenos e numerosos patrocinadores são pessoas que querem que aquilo esteja à venda. Estão incentivando a materialização de um sonho e ainda fazendo o mercado mais certeiro. Um exemplo simples que deu super certo, dentre tantos, foi um chaveiro em formato de canivete suíço que organiza todas as chaves. Esta ideia, para sair do papel, precisava de 6 mil dólares e acabou arrecadando mais de 300 mil. Nada mal. KeySmart deu certo principalmente porque trata-se daquelas respostas aos problemas identificados na vivência. Quem nunca ficou perdendo tempo e paciência procurando as chaves e depois mais um pouco até acertar a fechadura. Para os homens que guardam o molho de chaves no bolso, pode até machucar quando senta. E para as mulheres, é uma dificuldade achar na bolsa, além de barulhenta. Ou seja, quanto maior a identificação, mais chance de conseguir apoiadores. E isso não é exclusivo dos adultos: há empresas que materializam os desenhos de crianças da exata forma que foi rabiscada. Sonho de muito adulto que eu sei.

É a interação na sua forma mais bruta, que ganha força pelo anonimato e compartilhamento, sejam em grande ou pequena escala. Foi o que fez o Museum of the Moving Image de Nova York, no qual as pessoas podiam inserir um DVD em branco num filete na parede externa do museu. Passado menos de 10 minutos, bastava apanhá-lo no mesmo local, que estava gravado uma coleção aleatória de arte digital. Considerado uma instalação permanente, o Dread Drop fica à disposição da população 24horas por dia, gratuitamente.  

Essa cultura do faça você mesmo está se disseminando não somente nos produtos, mas na forma de conduzir a sociedade. E nem tudo precisa estar atrelado imediatamente ao lucro. Prova disso são os vídeos independentes que se tornam virais, que abordam os mais variados conteúdos: humor, música, arte, desabafo, enfim, o que o apresentador amador sabe fazer de melhor. Trata-se de uma grande democracia, num ambiente onde não precisa de patrocínio, indicação, currículo ou mesmo legado.

Sob essa perspectiva, uma marca nova pode ser bastante interessante nos dias de hoje. Significa, a priori, que já nasceu incorporando a dinamicidade dessa geração, que preza por atualizações virtuais, ações sinceras e retornos imediatos. Seus valores têm mais chance de estar naturalmente de acordo com o pensamento vigente da sociedade. Diferente de uma empresa grande e já estabelecida, que pode estar acomodada ou querer garantir certo afastamento e assim ser menos participativa com o seu consumidor final. O que é um perigo nos dias de hoje, quando a veneração pode se acabar vertiginosamente se, depois de anos de luxuosidade, é divulgado uma possível sonegação de impostos (sim, estou me referindo a Dolce&Gabbana). E se teve um contato desajustado com algum cliente, a saída é ser transparente e divertida, com o fez a Bodyform em resposta a um internauta desiludido com a forma romântica que eles retratavam as mulheres em seu período menstrual. Ocorreu ano passado, e continua sendo uma das melhores respostas dadas. Ou seja, o que está concretizado nem sempre é o mais confiável, bem dirá a nossa política.

Os recentes protestos, resultados de um estopim de insatisfação geral dos cidadãos, correm como um desabafo coletivo. Mesmo quem não se envolve diretamente nos movimentos se expressa de alguma forma: manifestos nas janelas, discussões no trabalho ou ainda opiniões compartilhadas pelas redes sociais. E hoje, nossos líderes são aqueles que conseguem dar voz ao povo, sem estrelismos ou afastamento da realidade. Por meio de vídeos revoltados e bem informados, algumas páginas como o “Não faz sentido” e o “Desce a Letra” fazem análises de notícias difíceis de acreditar, com muito humor e inteligência. Já aviso: são impróprios para menores. Além de outros que pontualmente se destacam conforme o momento, como a produção da estudante Carla Dauden que explica em inglês porque não vai participar da Copa, e Alex Ribeiro, pai ofendido com as palavras do jogador de futebol Ronaldo sobre a criação de hospitais no país, ambos com muitos adeptos.

Na maioria dos locais, não houve um organizador. Como cerne do pensamento coletivo, o anonimato entra como incentivador, já que é a cidade quem assina, pensando no bem para todos. Como a iniciativa do Ranking dos Políticos, uma ferramenta que se diz apartidária, com o intuito de auxiliar a decidir o mais assertivo voto, conforme uma análise do trajeto de cada candidato, gerando uma pontuação entre eles.

E assim, ativistas enrolados na bandeira do Brasil e cantando o hino protestam a respeito de estádios superfaturados, carga tributária abusiva, corrupção, ausência de recursos para a saúde e educação, enfim, uma intolerância instaurada pela má administração pública como um todo. Com isso, é resignificada a noção de patriotismo: não como sinônimo de ser apático com a situação do lugar onde nasceu. É sim, mexer na ferida para querer curar.

Em nome de um descaso total gerado pelos nossos governantes, algumas hashtags como #mudabrazil viajaram pelo mundo, deixando que algumas imagens falassem por si: que não era pelos R$0,20. Mesmo os que estavam longe criaram grupos de apoio e levantaram a bandeira da mudança, como em Coimbra, Berlim, São Francisco, Barcelona, Padova e Dublin, por exemplo. Foi como se sentissem na pele, mesmo não sendo uma revolta deles (se é que isso é possível em um mundo cada vez mais interligado). Foi esse o enfoque dado ao ensaio fotográfico intitulado “dói em todos nós”. Idealizado pelo fotógrafo Yuri Sardenberg, a atriz Fernanda Rodrigues, a modelo Yasmin Brunet, o ator Paulo Vilhena entre outros, posaram maquiados como se estivesse com um olho roxo, fazendo referência à violência e ao despreparo policial, na qual a repórter Giuliana Vallone foi atingida no olho durante a manifestação em São Paulo.

O povo saiu do Facebook

Ao mesmo tempo em que inicialmente a primeira resposta pelo uso excessivo da internet tenha sido o individualismo (conforme evocamos na edição 006 em novembro de 2010), virtualmente criou-se uma corrente de proporção inimaginável.  Como um marco histórico dessa troca de informações, a rede virtual é a principal causadora de certas condutas do nosso espírito do tempo.

Dito isso, possivelmente essas reivindicações não se resumem a um despertar tardio, mas sim um reconhecimento coletivo de sentimento mútuo. Pessoas de diferentes lugares, classes e idades, se dando conta que pensam de forma semelhante. Muitos acreditavam que estavam sozinhos na forma de pensar, porém, da identificação na semelhança de muitos outros originou-se uma força. O desencanto sobre a forma de gerenciar nosso país possivelmente existe há muito tempo, a diferença é que hoje sabemos que não somos os únicos a pensar isso, o que consequentemente resulta em um sentimento conjunto de um desejo de mudança. O compartilhamento virou a maior arma e a fotografia e vídeo, as melhores munições. Essa explosão estava prevista.

Então, voltando ao início deste texto, o maior erro de uma empresa nesta nova era seria (tentar) esconder algo dessas pessoas. Enquanto consumidores, elas são tão conscientes quanto no papel de ativistas. Entre desconfianças, divergências, teorias da conspiração, otimismo, revolta, alívio ou mesmo uma junção de todos esses sentimentos, o foco agora é torcer para que essa galera revoltada, sensata e bem informada queira entrar na política. E uma coisa é certa: um consumidor cidadão cada vez mais focado nas necessidades coletivas está se formando, e a chance dessa cultura evoluir é grande, já que por muito tempo a sociedade se manteve egocêntrica. É a liberdade se mostrando na forma de expressão.

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