Insight  | 24.04.2013 | Marina Seibert Cézar

A realidade contra-ataca
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Helena Christensen supernatural.

Tendências são muito mais do que meros produtos expostos nas vitrinas. São manifestações e formas de pensar do mundo, que podem influenciar as futuras tomadas de decisões de consumo, e essas propostas podem ficar anos no mercado, diferente de uma moda passageira que é definida por estação. Contradizendo o dito popular, não é o mercado que impõe as propostas, mas sim, são desejos traduzidos que vem das próprias pessoas que vão comprar. Está aí a razão de que é arcaico pensarmos que se precisa ouvir os consumidores, pois se for preciso eles falarem o que querem, já será tarde demais!

Toda tendência gera uma contra tendência - que são formas diferentes de interpretar um mesmo fato. E que, quando chega ao seu limite, extrapola o seu oposto. Isso geralmente acontece, pois as pessoas têm sede pelo novo, e é o que faz girar as engrenagens do consumo. Um novo conceito que atualmente está pairando no ar é o (re)significado do belo - o que nos traz a reflexão do feio.

Vamos do início. Tudo começou com a busca incansável (e ao mesmo tempo ilusória) pelo padrão de beleza divulgado e defendido pela mídia, que exigia corpos inimaginavelmente perfeitos. Celebridades e modelos nunca apareceram tão bonitos nas fotos, e nunca foram tão desejados. O preço desse mundo perfeito e irreal veio com nossa tolerância zero por imperfeições, em nome do reinado do photoshop, com seu poder absoluto de fazer qualquer um ser capa de revista. Não apenas isso, mas o excesso de magreza chegou a um ponto de saturação suficiente para começar os questionamentos.

E assim se iniciou o lado caricato. Quem nunca viu a assustadora comparação de duas imagens, sendo a primeira com as intervenções digitais, e a outra com todos os retoques possíveis que rolam na internet? Ou aqueles erros grosseiros de publicações mal feitas, como modelos sem umbigo de tanto limparem digitalmente sua barriga, ou joelhos lisinhos como se estivessem sido esticados. Mas então, se até os homens mais belos e as mulheres mais magras precisavam passar por retoques digitais, a ponto de não ser mais reconhecidos, quem seriam os personagens a estrelarem os anúncios, já que pessoas reais não são mais o suficiente? A resposta: figuras irreais.

A plastificação foi tamanha, que somente uma boneca poderia chegar aos arquétipos de beleza. E foi o que ocorreu. Marcas como Ramarim e Melissa trouxeram de uma forma muito inteligente garotas irreais. Dessa embonecação, teve espaço até para a matriarca Marge da família politicamente incorreta Simpson, ser a capa da Playboy americana de novembro, com direito a ser o pôster da página central mostrando sua pele amarela e cabelo azul!  

Pois bem, todo esse distanciamento da realidade está ocasionando uma nova tomada de valores. As pessoas não querem mais saber de tanta perfeição, e estão declarando sua preferência por uma nova estética, sem retoques e maquiagens. Dove ouviu ao apelo, e lançou internacionalmente a campanha da real beleza, mostrando mulheres comuns, com corpos comuns. A revista Nova também aderiu ao conceito, e lançou a campanha para a autoestima feminina, com atrizes como Samara Felippo e Ellen Roche assumindo suas celulites.

Visionários estilistas, como Jean Paul Gaultier e John Galliano já brincavam na passarela por meio de modelos foras dos padrões, mostrando pessoas acima do peso ou com idade avançada. Quando a cantora Beth Ditto posou nua para a capa da revista LOVE, com seus assumidos quilos a mais, foi considerada a melhor capa do ano na categoria moda. Entendendo o recado, a Elle francesa de abril do ano passado colocou celebridades na capa, como Monica Bellucci, Eva Herzigova e Sophie Marceau levantando a bandeira Stars sans fards, e fez jus a frase, pois as estrelas estavam realmente sem nenhuma maquiagem. Na mesma linha, a Harper’s Bazaar americana de setembro surpreendeu com o editorial Supermodels Supernaturals, ao mostrar modelos renomadas como Cindy Crawford, Amber Valletta e Claudia Schiffer no aspecto mais natural possível, com cabelos soltos, rostos lavados e regatas brancas. Quem também topou essa ideia e posou nua para a Marie Claire sem retoque algum, foi a ex-miss universo, Jennifer Hawkins, com direito ao dizer na capa: The Naked Truth.

Hoje, os anúncios que realmente chamam a atenção são com pessoas reais e com história pra contar, como fez a Louis Vuitton ao mostrar o líder da antiga União Soviética, Gorbachev, sentado em uma limusine enquanto passava pelo que sobrou do muro de Berlin, além dos veteranos astronautas Sally Ride, Jim Lovell e Buzz Aldrin que estrelaram suas campanhas. Arezzo interpretou de uma forma divertida e mostrou algumas mulheres saltitantes que se chamavam Marisa, Andrea, Regina e Fernanda, e seriam comuns se não fosse pelos sobrenomes não descritos: Orth, Beltrão, Casé e Torres.

Frases de impacto sobre como as coisas realmente são se tornaram slogan de grandes marcas: Coca-cola levanta a bandeira de que viva as diferenças, e ela tem razão, até porque redondo é rir da vida como sugere Skol. Pois o bacana é exatamente o sabor da verdade, Toddy sabe muito bem disso. Sprite resume esse conceito em poucas palavras: as coisas como são! A vida real se torna interessante o suficiente para vender revistas que trocam astros de Hollywood por anônimos nas capas, como o que é proposto pela revista Sou Mais Eu.

Para quem quiser arriscar, Benetton está à caça de um casting de pessoas com muita atitude, é só se inscrever. A Kildare já convidou seus clientes para estrelar seus comerciais, com sua campanha Histórias Reais. Estamos presenciando novos tempos... quem acreditaria que um negro, criado com a ajuda de seus avós, de descendência queniana e parte da família muçulmana, seria presidente dos EUA. Obama liderou não somente a candidatura, como a adesão de muito mais negros nas passarelas e capas de revistas. Resultado disso foi o lançamento de uma Vogue especial sobre Barbies negras, depois da histórica edição só com modelos negras.

Definitivamente estamos numa nova era, onde um transexual assume o cargo federal nos Estados Unidos, uma atriz realmente cega faz parte do elenco da novela da Globo, personagem da Turma da Mônica mostra-se aparentemente gay, uma linda deficiente auditiva é Miss Ceará e a campanha de carnaval de 2010 sobre o uso de camisinhas do Ministério da Saúde é com um casal homossexual. E quem diria, Fernanda Young na Playboy!

Então, viva as imperfeições! Pelo menos enquanto durar.

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2 comentários

Concordo com o termo de uso.
OlegFer

ArmandoWheme

Доброго времени суток. Думаю сделать серию фотографий для размещения в социальных сетях. С этим в связи думаю применить опцию очень скоростной киносъёмки. В кадре разместить логотип организации. Предполагаю, ее будут в сети передавать друг другу из-за "крутости" самой фотки, а при этом будет работать логотип. Ipeye 3811-[url=http://www.sedatec.ru/]http://www.sedatec.ru[/url]. Phantom 200. o.le.gv.i.tal.i.e.v.ic.h.1.23.4.5@gmail.com

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