Insight  | 17.09.2014 | Marina Seibert Cézar

A moda da anti-moda
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Cayce Pollard, musa do normcore.

O normcore é o termo do momento, mas sua referência não indica qualquer tendência estética. Muito antes pelo contrário!
  Para quem ainda não reparou, estamos na era dos paradoxos. Isso é verdadeiro nos mais variados ângulos, mas especialmente no nosso reflexo no espelho. Basta perceber que, ao mesmo tempo em que há excessivamente o acesso às informações de todos os teores, estamos completamente saturados delas. E assim como sentimos uma vontade de querer nos apropriar de tudo, chegou um ponto em que o mais bem informado é aquele que não se afeta mais com tudo isso, sendo um dos exemplos, as quantidades de propostas de estilos vindas de todos os cantos. A emergência sobre compreender a enxurrada de possibilidades faz com que cada vez seja menos questionado o que é (ser) mainstream.

  São centenas de desfiles do prêt-à-porter apresentados no mundo inteiro, complementados pelas pré-coleções, resorts, coleções-cápsulas e assim segue infinitamente. Sem mencionar as campanhas, editorais, ruas, vitrines, blogs e todas as mais variadas fontes de pesquisa, desde o cinema até os videoclipes.

  Potencializado a esse fato, ocorre o esfriamento do desejo de possuir marcas por dois principais grandes motivos. Um é que os consumidores não reconhecem mais como uma credibilidade garantida nelas; até porque, um pedido de socorro costurado numa etiqueta desestabiliza qualquer valor simbólico da empresa. E segundo, amarrado com a questão que pontuei na coluna da edição anterior da revista; ou seja, aquele público que o capital cultural e financeiro é novidade porque foi conquistado abruptamente, necessita de forma muito mais latente demonstrar visualmente sua nova classe social. Isso afasta aos demais consumidores que não querem ser confundidos com esse grupo.

  Dessa lógica, nasce então a normalidade. Isso mesmo. Uma aspiração de se individualizar, mas sem perder de foco o seu grupo de pertencimento. É querer ser o mais normal possível, distanciando dos que usam de sua aparência como uma projeção exagerada desse conhecimento excessivo. Ok, informação e conhecimento são questões diferentes, mas fiquemos por aqui. O cool é se desconectar dessa neurose de seguir, de mostrar, de falar, enfim, de se expor, seja visual ou mesmo verbal, e voltar às raízes. Sim, usar feliz aquela five pockets reta com blusão de moletom, ouvindo aquela banda clichê e comer todas as noites naquele restaurante bom e barato perto de casa. Pode ser também uma camisa gola alta com tênis, enfim, o que mais for. O importante é: a busca pelo conforto, tanto físico quanto psicológico.

Cabelos propositalmente amarrados com um coque bem alto, quase caindo com a metade dos fios e mechas pra fora. Blusões muito maiores do que o tamanho da pessoa. Todo esse ar oversize que brinca com as proporções do corpo e extrapola as linhas previsíveis. E compondo a produção, botas cano curto que, se estiver desamarrado, deixe assim. Mas claro, mesmo tentando, é arriscado querer prever a composição pessoal, pois o que estamos falando é, na teoria, a contramão do que está no mercado. 

Seguindo pelo viés da contradição, na mesma intensidade em que é um comportamento de grupo, sua meta visa uma pessoa ser diferente da outra, já que não se trata de uma proposta com elementos tão pré-descritos. Há sim, temáticas estéticas que convergem para isso, quase beirando uma transição dos anos 1980 com 1990, com modelagens mais atuais. Há referências já divulgadas e aceitas, inclusive um termo pra isso: normcore. E indicações de seus representantes, como o presidente Obama, o personagem Seinfeld e o pai da Apple, Steve Job. Lembrando que, assim como qualquer tendência de comportamento, quando se estabiliza como consenso no mercado, sua massificação está prevista e seu desgaste é inevitável. É somente uma questão de tempo.

  Mas até lá, o mais curioso deste fato, é que aos que enxergam isso e estão identificando como uma regra de conduta visual, torna-se uma tarefa bastante difícil para seguir e convencer por este movimento, por mais que se esforcem. Voltando ao paradoxo, na real, pode ser considerada uma grande brincadeira, uma vez que para muitos, essa despreocupação é algo muito planejada e conscientemente intencional. Se não fosse isso, não haveria tantas marcas de luxo investindo em tênis, mochilas e peças com modelagens mais desapropriadas das formas básicas justas ao corpo. Ainda como resposta, essa proposta de estilo faz revigorar o reconhecimento e com isso, se sensibilizar mais com aqueles que são genuinamente despreocupados em outros âmbitos, como na política. Mas vale colocar que poucos são aqueles que involuntariamente são pertencentes a essa esfera. É uma despretensão que se constrói como algo naturalizado. Pois bem, então quem diria, Mujica com sua sandália de couro e fusca azul está arrasando como ícone fashion. Estamos em outros tempos. Ou seria o mesmo que nunca saiu?

  Normcore

Termo criado pela empresa de trend forecasting collective K-Hole com a colaboração da empresa de pesquisa de marketing brasileira Box 1824.

O que é: Normcore é uma tendência da moda unisex, caracterizada por um visual despretensioso, por roupas de aparência comum. O termo combina as palavras “normal” and “hardcore”.

Contudo, escritório que detectou esta tendência – K-Hole – diz que o terno está sendo usado erroneamente pelos veículos de moda. Não deve ser usado não para descrever um look em particular, não se tratando de uma estética específica, mas uma atitude geral. Um novo modo de ser cool – de ser bacana – sendo “ardentemente” comum.
Emily Segal, de 25 anos, é cofundadora do K-hole e explica o raciocínio por trás deste estilo hiper-normalizado: “Há uma exaustão com a tentativa de parecer diferente. As pessoas estão realmente cansadas pelo fato de que, para alcançar “status” (destacar-se) você precisa ser diferente de todos os outros ao seu redor.”

O designer Richard Nicoll diz ter sido inspirado recentemente pela ideia do The Special Normal e do The Perfect Boring - O normal Especial e o chato Perfeito. “Normcore diz: Eu tenho alma e inteligência. Sou único e eu não preciso gritar isso” – segundo Nicoll. 

  Inspiração:

  Há mais de uma década (2003) escritor de ficção científica William Gibson idealizou um primeiro olhar sobre a estética normcore. Em seu romance, "Reconhecimento de Padrões", ele descreve sua logo-fóbica protagonista Cayce Pollard... Ela veste CPUs (“Unidades de Cayce Pollard”): uma pequena t-shirt preta de menino Fruit of the Loom, um pullover cinza v-neck de um fornecedor de uniformes para escolas preparatórias inglesas e uma 501 preta. Eventualmente, Cayce usa uma jaqueta bomber de MA-1 (também conhecida como a jaqueta de vôo MA-1) foi desenvolvido pela primeira vez em meados dos anos 1950. Detalhe: todas as etiquetas são cuidadosamente removidas!

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