Architecture  | 30.04.2013 | Luciane Bohrer

Sofisticação boêmia da Hermès na Rive Gauche
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O lado esquerdo do Rio Sena já não é mais o mesmo. Desde que Yves Saint Laurent abriu as portas deste lado da margem, a Rive Gauche cedeu aos encantos da elegância e abriu mão de um pequeno pedaço de terras parisienses antes apenas frequentadas por boêmios, artistas e intelectuais. Agora, mais uma grife encontrou lá o ambiente ideal para abrir uma boutique. A nova loja da Hermès está instalada onde antes ficava o Hotel Lutetia, inaugurado em 1935 na Rue de Sèvres. Saint-Exupéry, Picasso, Jean Paul Sartre, antigos hóspedes do lugar, ficariam orgulhosos do que a marca fez com o espaço. Transformou o prédio em uma grande obra de arte de 2.500 metros quadrados.

Depois de muito tempo procurando o lugar ideal para sua nova loja em Paris, a Hermès escolheu o antigo hotel Lutetia para mesclar eras e traduzir os valores que já expressava através de seus produtos. Nos dois andares do prédio, considerado memória da art deco, essa mistura pode ser vista na arquitetura e na decoração, mas também acontece através de ambientes como um salão de chá, o Lê Plongeoir, e uma floricultura com a assinatura do jovem florista Baptiste Pitou.

Mas não se pode negar que a grande atração do lugar é a piscina. E foi inspirada nela que a festa de inauguração da loja explorou a água e as boas lembranças que ela pode nos trazer. Crianças vestidas com roupões e toucas de natação recepcionavam os convidados, enfileiradas no corrimão. O som ambiente lembrava o barulho das ondas, enquanto uma projeção de cenas de piscinas cobria as paredes da maison.

Tudo isso nasceu na mente de um arquiteto incrível que reuniu uma super equipe de designers e profissionais criativos. Denis Montel, diretor artístico e administrativo do escritório RDAI, nos contou em entrevista exclusiva como se inspirou e por onde levou a sua imaginação e a sua técnica para criar um ambiente ao mesmo tempo natural e contemporâneo.

Quais são suas fontes de inspiração?

Os esqueletos de baleia do Museu de História Natural de Paris. Estruturas móveis. E barcos em garrafas.

E como este lugar te inspira?

A piscina na Rue de Sèvres, número 17, em Paris refletia o gosto da época e foi construída com o que era, então, tecnologia moderna: concreto reforçado. O espírito da Art Deco era muito proeminente na decoração, nos mosaicos dos ladrilhos e nos metais folhados a ouro. Mas esta foi uma construção Art Deco muito modesta, sem características arquitetônicas importantes. Assim como o seu volume. Certamente foi uma surpresa encontrar tal espaço banhado em luz natural escondido dentro de um prédio parisiense. Quando olhamos mais de perto para analisar, vimos que estávamos lidando com um volume não muito equilibrado de espaços: um grande vazio na parte interior dava uma sensação de ser maior do que a área da superfície. Decidimos, então, ocupar esse interior de uma maneira exagerada. O projeto era “adicionar”. Começamos a restaurar a parte de dentro e o conjunto arquitetônico foi  ficando como o original.  Este era composto por três estruturas de madeira que rompiam com as proporções do espaço existente – ou melhor, brincavam e dialogavam com ele. Caixas dentro de caixas… casas dentro de casas, cabanas dentro de piscina. A escada convida os visitantes a andar entre as três cabanas monumentais dentro da piscina, em um passeio que muda as escalas, e os espaços se expandem e se contraem. Um diálogo feito entre o volume de existir e seus convidados. O projeto é duplo: como um barco dentro de uma garrafa, é difícil dizer o que é mais surpreendente. Vivem juntos e sustentam um ao outro.

O fato de sua localização influenciou neste projeto?

O Architectes des Bâtiments de France (órgão responsável pela lista de prédios históricos ditos tombados) é muito vigilante quando o assunto é restauração. A ideia era desenvolver um diálogo harmonioso entre as origens e o presente. O objetivo era restaurar um lugar que estava naturalmente desgastado, mas que também foi transformado em meados dos anos 70. Quisemos mostrar as qualidades da arquitetura existente e recapturar o espírito da década de 30, enquanto oferecemos uma expressão muito moderna com o espírito da Hermès, mesmo do lado esquerdo do rio Sena, sempre  considerado o mais boêmio e intelectual.

Construir em um lugar histórico determina sensações diferentes nos visitantes?

O projeto tem duas partes distintas: por um lado, restauramos algo que ficou desde 1930 naquela piscina e por outro introduzimos uma arquitetura completamente nova e contemporânea. As duas eras conversam entre elas e cada parte da loja tem sentido particular. Há um diálogo entre duas expressões, entre duas eras. Este diálogo enriquece a experiência do visitante.

Como você quer que as pessoas se sintam neste ambiente?

A fachada da loja com sua frente relativamente pequena não entregam o segredo do espaço que tem atrás. A entrada funciona como uma deliciosa armadilha onde os visitantes entram e se deixam levar cruzando a soleira da porta da  rua até que conseguem chegar na piscina e nos seus habitantes estranhos: as cabanas. As perspectivas na entrada são quase imperceptíveis, pois contraem o volume, onde o teto é ligeiramente inclinado e as paredes curvadas e apoiando o interior. Uma vez dentro da área da piscina, a loja é muito aberta e acessível, deixando um acesso fluído à cada gama de produtos. A transparência das cabanas e o fluxo orgânico ajuda o visitante a vagar e explorar o ambiente. As cabanas são como casas dentro de uma casa. O visitante sente-se confortável para passear porque ela conta uma história.

Onde você acha que existe luxo além dos dourados e mármores?

Luxo é um substantivo difícil e muito mal-entendido. Em nossa arquitetura buscamos estimular a imaginação e tomar um ponto de vista particular. A RDAI privilegia o essencial, evita o supérfluo e busca os contornos de beleza. Porque a beleza, talvez, esteja situada entre as linhas. O projeto acabado aspira ir além da expectativa do cliente e quer interpretar o que não ficou dito. A Hermès não procurou ser espetacular na Rive Gauche. Ela quis traduzir para este espaço os valores, os quais a Hermès expressa através de seus produtos. Os valores da Hermès que traduzimos na loja são herança e modernidade, o know how e a criação. O espaço ficou muito vivo e ativo.

As pessoas estão com necessidade de coisas mais naturais e reais?

Nós queríamos um espaço que falasse com o visitante de maneira íntima, aconchegante. As estruturas de madeira são naturais e as pessoas podem se relacionar com os materiais, porque, sim eles são reais. A madeira cuidadosamente acabada com jatos de areia e óleo é bonita e macia de tocar, quase um material vivo. A luz do dia também é um elemento recorrente em tudo de nosso trabalho para Hermès. É uma crítica a experiência humana com os espaços e nós tentamos colocar luz natural mesmo quando ela não está presente.

Como foi o processo para que o material ficasse como você queria?

As cabanas são feitas de madeira freijó laminada pré-curvada. O design de cada peça foi calculado por um sofisticado programa de modelagem em 3D  desenvolvido especialmente para o projeto pelos engenheiros estruturais Bollinger&Grohmann. A madeira é cortada e furada com buracos para a fixação. As peças foram coladas e pré-montadas As tábuas numeradas foram coladas unidas em um andaime na oficina do alemão Holzbau Amann. Depois, o material foi jateado com areia três vezes e finalizado com óleo. O acabamento foi feito e enviado a Paris em um tablado. Quando finalmente tudo estava reunido no local da instalação, foram parafusados e os buracos fechados com uma capa de madeira cuidadosamente selecionada para combinar com o material.

Se há não mais água na piscina ainda é uma piscina?

O cheiro da água pode ter ido embora, mas ainda tem ainda a sensação dela lá. O cenário é muito mineral, muito sonoro. A velha piscina está forrada com um mosaico de cerâmica e vidro com sombreamentos em cinza, verde, ouro branco e prata. A ideia é utilizar estas cores para recriar a sensação de uma piscina com uma superfície cintilante. A presença da água é também evocada no teto por projeções que são feitas pelo sistema de luz.

Estamos falando de ondas aqui?

Em um nível muito menos literal, sim. A maioria dos elementos arquitetônicos que foram acrescentados é fluído e leve. Eles encorajam os movimentos, tão livremente e tranquilamente quanto um corpo na água. No andar térreo, por exemplo, as paredes têm um formato um pouco curvo. Às vezes, mudam a forma para acomodar novos displays de exibição ou estantes. Para dar outro exemplo, a escada principal, criada para enlaçar o andar térreo e o nível mais baixo (o nível de piscina), se estende como uma fita inclinada. O movimento é natural, como uma cascata. E as cabanas giram à medida que vão se aproximando da luz. Queremos que esta intervenção arquitetônica seja decisiva, mas suave e envolvente.

Muitas pessoas estão chamando de cocoons ou ninhos as peças da loja, mas a sua ideia partiu da estrutura de baleias. Você pretendia causar essas diferentes interpretações?

É verdade que pessoas diferentes dão diferentes nomes para as cabanas. Alguns falam em ninhos, outros falam em cestos. Na Hermès Rive Gauche, nossa ideia era provocar certas emoções, para dar uma impressão no visitante. Algo chamativo e memorável. As estruturas evocam a nossa imaginação infantil. Talvez por isso, as pessoas se apropriem das obras e dêem a elas o nome que lhes vem à cabeça.


A iluminação
Em um volume de peças como este, a iluminação é crucial. O espaço inteiro está banhado em luz natural que penetra através de três claraboias acima do saguão, que são suavizadas por uma tela de metal. À noite, lâmpadas nessas aberturas são acesas para evitar um efeito de “buraco negro”.
Para que não houvesse sombra nos espaços que antes eram vestiários da piscina, os efeitos tiveram que ser medidos e os contrastes foram atenuados. Todos os painéis verticais também são levemente iluminados.
As paredes onduladas em gesso branco têm uma luz de cima com uma fita de LED escondida de quem vê. As estantes têm o mesmo sistema. Já a ideia da luz do interior das cabanas é fazer com que se pareçam lanternas gigantes.

Os Mosaicos
A ideia da piscina é mostrar um mundo mineral. Os andares, as colunas, as escadas estão cobertas em mosaicos de ladrilho ou granito. Os elementos que enfeitavam o chão e as paredes foram preservados e restaurados.
Na entrada da loja há um tapete de mosaico com motivos gregos que dá as boas-vindas aos visitantes. Seguindo esta ideia, os passos e degraus da nova escada são em granito.
Acrescentando a este refinamento, os andares com salas menos visíveis aos visitantes (como os banheiros) foram trabalhados com telhas quebradas. É uma maneira de escrever novos espaços com a velha história da piscina. A superfície da piscina está enfeitada com um mosaico, cuja textura e composição são de cerâmica e vidro e dão a impressão do movimento de ondas.

Serviço
Hermès
17 Rue de Sèvres,
75006 Paris
Tel.: 01 42 22 80 83
Horário:
Segunda a sábado
10h30 às 19h

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